Não é novidade
para ninguém que o Theatro da Paz é um dos mais
belos e luxuosos do Brasil, e símbolo de um dos momentos
mais importantes da história do Pará: a Era da
Borracha. No entanto, poucos sabem sobre sua origem e o que ele
representa artisticamente na história do Pará.
São quase 125 anos de existência, e muito aconteceu
desde então: vários espetáculos memoráveis
e inúmeras reformas que fazem o teatro atravessar gerações.
O
teatro foi inaugurado em Belém no dia 15 de fevereiro
de 1878 com o nome de Theatro de Nossa Senhora da Paz. Na ocasião,
foi apresentado o drama "As Duas Órfãs",
do escritor francês A.D'Ennery. Os principais frequentadores
da casa ansiavam pela inauguração. A abastada aristocracia
e burguesia paraense enriquecida pela exportação
da borracha havia perdido um dos únicos espaços reservados
a apresentações artísticas na capital, o teatro
Providência.
A
espera durou quase dez anos e não foi em vão.
A magnífica arquitetura do Theatro estava finalmente à altura
dos barões e baronesas da borracha. Crônicas da época
chegam a chamá-lo de "um monumento de d'arte".
No entanto, a programação artística deixava
a desejar. Durante quase dois anos o espaço foi utilizado
para a apresentação de grupos mambembes, de farsas,
dramalhões e bailes. Estes ficaram famosos por serem as
melhores festas da província.
Foi
graças ao primeiro baile de máscaras, em março
de 1878, que a igreja católica paraense anunciou a sua insatisfação
quanto ao nome do teatro. O bispo Dom Antônio de Macedo Costa
não gostava da idéia do nome de Nossa Senhora estar
estampado na fachada e por isso o teatro passou a se chamar Theatro
da Paz.
Apenas
no final do século XIX as grandes companhias de ópera,
canto e balé chegaram ao Theatro da Paz. Em 1880, a Companhia
Lírica Italiana de Tomas Passini apresentou Ernani,
de Verdi, sob a regência do renomado maestro Enrico Bernardi.
E assim iniciou-se a grande tradição lírica
do Theatro da Paz.
A
partir daí grandes maestros, óperas, orquestras
e balés estiveram no palco do teatro, sempre entre uma reforma
e outra. Em 1887 a primeira grande mudança aconteceu. O
teatro que era antes decorado com modéstia ganhava novo
projeto para seu interior. O artista italiano Domenico de Angelis
foi contratado pelo governo provincial para decorar a sala. Foi
ele que projetou a pintura do teto, onde se vê Apolo, deus
das artes e da poesia, conduzido por um carro puxado por cavalos,
rodeado por musas, entrando na Amazônia.
No
entanto, a mais importante foi executada em 1904, quando o teatro
foi
completamente transformado de acordo com os padrões
da belle époque (1890 a 1914). A fachada
foi recuada e foi tirada uma das sete colunas da arquitetura original
do prédio. O prédio passou a ter seis saídas
ao invés das três originais. Portas e pisos foram
refeitos com madeiras nobres da região e os pisos redesenhados
em forma de mosaico. O teatro ganhou ainda os belos lustres de
cristal do hall de entrada, da sala de espetáculos, do salão
nobre e dos camarotes, que deram luxo, brilho e requinte à casa.
O
teatro foi reaberto em 1905. A companhia lírica italiana
de Donato Rolli apresentou a ópera Tosca,
de Puccini, pela primeira vez no Pará. Nos anos seguintes,
o teatro deixou de abrigar as grandes companhias. Por volta de
1910, a decadência do ciclo da borracha e da economia paraense
impossibilitaram financeiramente a vinda dos grandes maestros e
orquestras à capital. O último suspiro das grandes
apresentações aconteceu em 1918 com a vinda da companhia
russa de balé de Anna Pavlova.
Nos
anos seguintes grandes e pequenas reformas foram feitas. Algumas
emergenciais,
como em 1988, quando foram restaurados os lustres
de cristal e o mobiliário. Outras polêmicas, como
a que aconteceu na década de 60 com a contratação
do artista brasileiro Armando Balloni para realizar nova pintura
no teto do Foyer. A última grande reforma foi a de 1999.
O Theatro da Paz ficou fechado durante 2 anos e foi entregue mais
uma vez ao público paraense com a apresentação
de uma ópera, Macbeth, de Verdi, foi
a escolhida.
Em
1963, o teatro foi tombado pelo Serviço do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), para preservar
este prédio, que é um dos mais importantes da arquitetura
e do imaginário paraense. E se antes desfrutar do Theatro
da Paz era um privilégio dos ricos da capital, hoje seu
espaço é mais democrático. Shows e apresentações
líricas têm preços acessíveis e pessoas
de todas as classes podem frequentar o teatro.
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