ady B" *
Por:
Carlos Correia Santos
Quarta
Parte – Capítulo Final
Parecia
encantaria, mas os saltos finíssimos de Lady
não engatavam minimamente nas fendas das madeiras.
O travesti e Evaldo corriam por um trapiche que se
lançava às águas que banhavam
Macapá. Uma lancha ali esquecida era o alvo
da dupla de bandoleiros. Corriam e corriam. Retardatária,
a polícia ainda vinha longe, dava-lhes mais
chances de fuga. Lady gargalhava. Seu inusitado comparsa
ria nervosamente.
Jogaram-se
na embarcação. Frenesi. Um
saboroso frenesi. Dificuldade para dar partida. Escandalosa
tensão. Por fim, o motor concorda em se ligar
e o veículo se vai, rasgando o rio, abrindo
caminho no pique da impetuosidade.
O
vento no rosto de Lady. Uma súbita, estranha
e indisfarçavel tristeza:
-
Tem horas na vida que a gente parece sentir as últimas
horas da vida...
Guiando a lancha, Evaldo sentiu um calafrio:
-
Credo!... Coisa mais mórbida de se dizer – Os
olhos atados na furiosa melancolia que capturara o
rosto do outro – A gente já conseguiu
o mais difícil!... A gente se livrou da polícia!...
O travesti, um olhar perdido, um tom de voz seco:
-
Não esqueça do que foi combinado...
Procure Adão... Vá até o endereço
que está na carta que lhe dei... Não
se esqueça!... Diga-lhe que vou amá-lo
para sempre!...
-
Ora, essa!... Tu própria vais dizer isso
pra ele!
De repente, o estranho pedido de Lady:
- Pare a lancha.
- O que?
Um quase brado:
- Pare a lancha!
Ordem
atendida. O colosso de músculos negros
se pôs em pé no meio da embarcação.
A inusitada cena. Equilibrando o prumo no barco nos
saltos, Lady e sua berrante indumentária. O
travesti abriu os braços, fechou os olhos e
repetiu a estranha frase num murmúrio:
-
Tem horas na vida que a gente parece sentir as últimas
horas da vida...
O tiro. Certeiro, surpreendente, cruel. Vindo de um
quando jamais se pensava, um violento tiro tomou para
si o peito de Lady B.
O
choque de Evaldo. O que havia acontecido? Como aquilo
era possível?...
Só então, seu olhar correu em volta
e viu as três escunas da polícia que haviam
aparecido do nada para cercar a lancha. Numa das embarcações,
o delegado, arma em punho ainda fumaçando, riso
de vitória nos lábios.
Agora
vidrado de choro, redirecionou o olhar a inesquecível
figura de Lady B. O jorro de sangue quente descendo
pela volúpia de silicone, manchando com um penoso
adeus todo o colorido das bijuterias. Com os braços
ainda abertos, o travesti negro tombou lentamente e
caiu de costas nas águas do rio. Caiu nas águas
para sumir e nunca mais ser visto...
Passada toda essa tresloucada aventura, estamos de
volta ao ponto em que Evaldo se encontra diante de
um barraco de madeira, na periferia de Macapá.
Era o endereço que a carta deixada por Lady
indicava. Tinha a correspondência nas mãos
e um intenso baticum no peito. Bateu, por fim, à porta
do casebre e, para sua surpresa, quem atendeu foi
uma mulher.
-
Pois não?...
O desconcerto de Evaldo:
- É...
Eu... Bem, devo ter me confundido...
- Tem alguma coisa a ver com o Hermes?
-
Hermes? Não, não...
Um
delicado riso nos lábios da moça:
- A Lady. Tem alguma coisa a ver com a Lady?
O rapaz cada vez mais confuso:
- Quer dizer que conhecias a Lady?
-
Sim. Claro que sim. O verdadeiro nome dele era Hermes – Então,
veio a revelação bombástica: -
Fomos casados. Eu fui esposa dele.
Evaldo
teve a impressão de ouvir em algum lugar
a sarcástica gargalhada do travesti. Mera impressão?
Não conseguiu dizer nada. Não conseguiu
expressar qualquer reação...
Coube
a mulher prosseguir com aquela inusitada conversa.
Estendendo a mão ao visitante, apresentou-se:
-
Muito prazer!... Meu nome é Gaya.
Apenas
após o cumprimento, Evaldo teve condições
de cumprir sua missão:
- Bem, eu estou vindo aqui trazer uma carta. Uma carta
para...
-
Para o Adão?
Aquilo estava cada vez mais despropositado:
-
Sim... É uma carta para o Adão.
Sempre
sorrindo com ternura, Gaya afastou-se levemente e
fez com que a porta do barraco resvalasse devagar.
Assim, aos olhos de Evaldo surgiu a figura de um menino.
Um garoto sentado no chão do casebre, divertindo-se
com brinquedos de miriti com o formato de cobrinhas.
E Gaya explicou tudo:
-
Esse é Adão. Meu filho e filho do
Hermes... O amor da vida do Hermes... Criatura pela
qual ele era capaz de fazer qualquer coisa. Matar,
roubar... Qualquer coisa!...
A
gargalhada de Lady B. Sim, Evaldo ouviu a gargalhada
de Lady B. em seu ouvido e refestelou-se com isso.
Entregou a carta a Gaya e se foi. Estava cumprida sua
promessa. O dinheiro seria achado e usado por mãe
e filho como bem quisessem. Foi-se um Evaldo mudado
para sempre. Transformado como nunca. Foi-se para outra
vida. Para viver finalmente tudo o que tinha a viver.
Foi-se... Descobriu um dia que ainda preservava consigo
o batom e o espelho de Lady. Relíquias que guardara
após a fuga da igreja. Passou o batom nos lábios
e mirou-se no espelho. Havia mudado para sempre. Calçou
um sapato de salto finíssimo e pôs no
corpo um vestidinho azul celeste bem provocante. Estava
mudado como nunca. Alongou os cabelos, pintou as unhas
e foi-se para as ruas. Estava mudado como jamais. Numa
tarde qualquer, alguém lhe lançou uma
ofensa, quis lhe impor um desrespeito. Não permitiu.
Revidou. Ergueu os ombros e bradou:
-
De hoje em diante, ninguém nunca mais vai
me humilhar!... Ninguém!... Ou eu não
me chamo Lady Eva!...
Na próxima semana, leia a primeira parte do
conto "O Canto da Vingança", inspirado
na lenda da Iara.
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