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![]() Ademar Ayres do Amaral, Engenheiro Civil, escreve para o Portal de Óbidos e para Jornal de Óbidos. amaral@amazon.com.br :: Outros textos ::
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O Viúvo Ademar
Amaral -
Flor de Maio! Flor de Maio! Assim,
em passadas rítmicas, mão no peito em feitio de prece, assistia-se
o lúgubre sofrimento daquele viúvo quarentão. Buscava espaço da
sala para o corredor, do corredor para a cozinha, depois para a
varanda e dali novamente até a sala onde recomeçava sempre a mesma
lamúria. -
Flor de Maio! Flor de Maio! Num
repente, parava junto ao caixão da falecida e arremessava-se sobre
ele com ímpeto demoníaco, num esganiçar baboso de cão hidrófobo.
Braços abertos em forma de cruz, gritava possesso. -
Flor de Maaaio! Flor de Maaaio! A
seguir, desmaiava retorcendo a boca, amparado pela compaixão dos inúmeros
amigos e por comadres bem postas no papel de carpideiras. Abana pra
lá, abana pra cá, álcool sendo passado no corpo e a cabeça
sempre apoiada no regaço desvelado da cunhada Arlete. Tão violenta
desembestou uma das crises, que tiveram de chamar meu avô Ayres
para dar atendimento ao homem. Portuga severo como ele só, e
profundo conhecedor dos segredos da vida e da morte, sentenciou com
a segurança e a bagagem de anos na profissão de boticário:
"- É pantomina da grossa!" E foi embora cuidar da sua
fiel e crescente freguesia na conceituada Farmácia Esculápio. Depois
do ataque, Eládio(sim, o nome dele era Eládio) abria os olhos
nocauteados, sem sintonia, olhos sem rumo. Languidamente, em gesto
de súplica, pedia água. Ajudado por Arlete e com as mãos trêmulas,
sorvia um gole do precioso líquido para logo aprumar-se perto do
caixão da esposa adorada e reiniciar a mesma lenga-lenga. -
Flor de Maio! Flor de Maio! Grande
era o ajuntamento de amigos, parentes e curiosos. Os amigos
prestando apoio, solidariedade, os curiosos atraídos pela frase fatídica
do Eládio, transmitindo um martelar de angústia diante da perda
irreparável da companheira. Pois a dita frase foi contaminando de
tal forma a cidade, que no tempo de um raio toda Óbidos ficou
sabendo e compareceu. Chegavam em bandos vindo dos lados do porto de
cima, das cercanias do cemitério e mesmo, acreditem, da longínqua
colônia do Flexal. Iam se aproximando tangidos pelo som rumorejante
que passava de casa em casa, de esquina a esquina. Nada
a estranhar. Mortes, doenças e partos daquele tempo eram repletos
de gente e de muita dor. Não havendo telefone, as pessoas
guiavam-se pela fartura de gemidos e gritos. A primeira, a
costumeira pergunta que a visita fazia era esta: -Ela geme? Está
gemendo? Os partos, por exemplo, doíam de verdade. Conheci uma
senhora que gritou dois dias para ter o filho e no fim chorava
feliz. Passou longe da anestesia peridural que veio aposentar dores
e gemidos. Hoje, o simples e natural ato de dar à luz,
transformou-se num dos mais complexos teoremas da medicina moderna.
E também num dos mais caros. A sala de parto, me disseram, é
dotada de aparelhos dispostos a tudo, funcionando com precisão e
sincronismo sem limites. É como numa mágica de circo: as crianças
são despejadas em série e com uma rapidez hedionda. Lá pro meio
deste novo milênio, talvez a parturiente vá ter o filho de patins,
mascando chicletes e com o walkman nos ouvidos. Será tão divertido
quanto freqüentar uma discoteca. Aí, quem sabe, as mulheres já
terão esquecido inteiramente, que essa coisa meio antiga que é o tão
nobre sentimento da maternidade, depende do momento sublime da dor
para continuar sendo eterno. No
caso do saudoso marido, a dor aparentava ser pior. A cada hora avançada,
mais apareciam curiosos farejando o velório da finada D. Filica,
com a rua num borbulhar contínuo de gente aguardando a saída do
caixão. Dentro da casa, além do roçar do sapato do Eládio no
assoalho, e da frase tantas vezes pronunciada, era de espantar o
comportamento unânime das damas presentes: nada se falava, quando
muito se balbuciava com intuito elevado de não atrapalhar, de não
sabotar o padecimento do viúvo. Uma delas, íntima da defunta,
sussurra para a vizinha de cadeira: -
Será mesmo pantomina como disse o Seu Ayres? Pobre homem. E sofreu
tanto na doença dela... Digamos
que a solidariedade era merecida. Viveu naquele endereço um casal
que reunia quase tudo o que um bom casamento merece ter: respeito,
compreensão, amor, tudo. Ele, comerciante de loja sortida,
fazendeiro abastado do Paraná de Baixo e conferencista convicto da
Irmandade de São Vicente. Ela, papa-hóstia de não perder missa,
uma das organizadoras da grande festa de Sant'ana e figura de proa
no Apostolado da Oração. A destacar, apenas um solitário senão
nos vinte anos do matrimônio: não tinham conseguido gerar um
filho. E, na maioria das vezes, para o equilíbrio de um casamento,
esse detalhe chega a ser, digamos, fatal. Mas tão logo percebeu
essa impossibilidade, D. Filica tratou de cortar o mal pelo começo,
tomando a irmã mais nova para criar. Desse modo, uma Arlete, ainda
muito menina, entrou e se enraizou na vida deles. Passou a ser a
filha mais do que sonhada. Cresceu alta, esbelta e bonita. Um femaço
que fazia os homens de Óbidos e arredores rastejarem como repteis
diante dela. Fosse José de Alencar obidense, certamente teria
escrito que ela tinha os lábios de mel e que seus cabelos eram
negros como as asas da graúna. Pois
pra meio de conversa, diga-se de passagem que o vigilante pai
sustava qualquer indivíduo que se aproximasse dela. Fosse pobre ou
rico, bem ou mal intencionado, esbarrava no ciúme doentio, pra bem
dizer, patológico, que Eládio nutria pela filha de criação, ou,
como ele mesmo dizia em tom carinhoso, pela " minha cunhadinha
de criação". Fora isso, e os fatos acontecidos nos últimos
tempos antes do passamento de D. Filica, o que a cidade se acostumou
a apreciar naqueles vinte anos de união, podia ser comparado a uma
paixão acesa como larva incandescente e deslize suave para fugir
das escarpas da rotina. A
doença que se abateu sobre a pobre mulher, não teve causa aparente
nem diagnóstico. Eis o fato: três meses antes de falecer, então
vendendo saúde, ela tornou-se triste, abatida, perdeu o apetite e
foi definhando de maneira galopante. Logo era pele cobrindo osso.
Abandonou a igreja e jogou-se depressiva no fundo de uma rede. Junto
com isso, passou a desenvolver uma surpreendente e obsessiva ojeriza
do marido, a ponto de mudar de cômodo, transferindo-se para o
quarto de Arlete. Nem bem pisava na soleira da porta, Eládio era
recebido quase a pedradas e xingado de sem-vergonha, patife,
aproveitador, o diabo a quatro. Linguagem, convenhamos, atípica
para aquela dama de santas e reconhecidas virtudes. No entanto,
sejamos justos, Eládio suportava a ira e os xingamentos da esposa
com uma humildade franciscana. Dava dó de ver o estado do homem.
Questionado a respeito, resumia-se a estalar a língua e dava um
"não sei" com a cabeça. Em seguida, mirando o rebojo
fogoso da garganta do Amazonas, comentava com o olhar perdido no
estirão: -É
a doença, a doença... Na
saída do féretro, outro escândalo. Eládio precisou ser contido
à força para que minha parenta Zuráia lhe aplicasse uma injeção
de óleo canforado. Nova sucessão de desmaios no cemitério, com
todos se acercando do infeliz ante a tentativa de se jogar na cova
ao lado do caixão. Terminada a dramática cerimônia do enterro,
sentado ele ficou na sepultura acompanhado da prestimosa Arlete,
mesmo depois que o último dos presentes se retirou, não sem tempo
de vê-lo chorando sobre o jazigo. Um choro que de tão forte, mais
parecia um mugido. Depois
de alguns dias do comentado acontecimento, e aludindo necessidade de
se livrar das pesadas lembranças que o torturavam, Eládio decidiu
vender a loja, a embarcação e a grande fazenda do Paraná de
Baixo.Com toda aquela grana no bolso, despediu-se de Óbidos e, com
a “filha” Arlete, partiu de mudança no rumo de Manaus. Cinco
meses mais tarde, e já devidamente casado com a cunhadinha, Eládio
realizou, finalmente, seu grande sonho de macho: tornou-se pai pela
primeira vez. Pesando quatro quilos e com sustança de touro
premiado, o rebento passou a fazer parte dessa longuíssima e
interminável dinastia de "prematuros" obidenses. Clique para comentar >> Comentários |
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