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![]() Ademar Ayres do Amaral, Engenheiro Civil, escreve para o Portal de Óbidos e para Jornal de Óbidos. amaral@amazon.com.br
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Curandeiros Ademar
Ayres do Amaral
Conheci
alguns e ouvi falar de muitos curandeiros e curandeiras na região
do Baixo-Amazonas. O que sempre me deixou curioso, é como, quando,
em que instante, alguém se arvora dessa condição sobre humana com
algum carimbo do céu ou do inferno, ou seja lá de onde for,
fazendo espalhar uma profunda crença nas pessoas ingênuas que
correm em busca de um remédio milagroso para seus males. Vira e
mexe aparecia uma dessas figuras no Paraná da D. Rosa se dizendo
cheio de poderes e mil artimanhas, mas sempre encontrando no meu pai
um cético que, invariavelmente, os desafiava a colocar um
sapo na barriga dele. Eram estranhos sem origem definida, com lábia
macia de enganar trouxa, oferecendo trabalhos de macumba para
melhorar a vida de quem fosse atrás, tendo como único objetivo,
arrancar dos incautos o quanto desse. Normalmente os bobalhões
ficavam a ver navio, ou melhor, a ver a curandeira deixar Óbidos no
barco da linha com a bolsa gorda de dinheiro no rumo de Manaus.
Guardo, da minha infância, algumas lembranças de episódios
curiosos sobre esses curandeiros. O mais conhecido deles todos e por
muito tempo festejado no interior e arredores era o curandeiro Moisés
que, segundo diziam, tinha de diferente o fato de ser uma criatura
bondosa e de nunca usar de leviandade com as pessoas que o
procuravam. Tinha a vida independente e exercia essa atividade por
pura convicção, chegando ao ponto de indicar o competente Dr.
Lauro Corrêa Pinto quando sentia “que o assunto era de médico”.
Sua casa era na costa fronteira de Óbidos, quase em frente à boca
do Rio Trombetas, e passagem obrigatória da minha vó quando ia a
Óbidos, sempre ordenando que a lancha parasse na casa do velho
amigo Moisés para comprar banana grande. Outro famoso na região e
que também não angariava queixa de ninguém era o negro Assis.
Este se dedicava exclusivamente a curar pessoas das ferroadas ou
picadas de qualquer animal peçonhento, principalmente da terrível
serpente surucucu. Havia também a garrafada do velho, rotulada com
o nome de Pauxis, uma poção de ervas, segredo guardado a sete
chaves desde seus ancestrais africanos, que passou a ser fabricado
por uma de suas netas depois que ele faleceu. Ao ser picado, a
pessoa tomava uma dose e ensopava um algodão para colocar na
ferida. O resultado era fantástico. Certa vez presenciei uma cena
incrível: chegou na fazenda um caboclo ferroado de arraia, aos
gritos e rolando de dor, que a família levou em busca de algum
recurso para minorar seus sofrimentos. Minha vó, que nunca ficava
sem o remédio do “seu Assis”, deu uma dose certa para o homem e
segurou na ferida um pedaço de algodão embebido no líquido. Em
poucos minutos o rapaz estava calmo e conversando normalmente.
Diziam, mas eu nunca vi nem nunca acreditei, que o velho Assis
acalmava uma surucucu bastando dar uma cuspida em cima dela. Conheci
também muitas pessoas curadas por ele, algumas ainda usando uma
cordinha no tornozelo, que somente saía dali quando o barbante caísse
de podre. Correu boato, na época, que o Instituto Butantã, de São
Paulo, tentou comprar a milagrosa fórmula da garrafada, mas não
chegaram a bom termo porque o velho pajé nunca teria admitido
passar o segredo da família. Outros comentavam que era porque a
garrafada perderia o poder de cura se o segredo da fórmula caísse
nas mãos de alguém estranho. A garrafada Pauxis, hoje é vendida
em Santarém pelos descendentes do velho e ainda continua sendo o
principal recurso das famílias humildes do interior contra o veneno
da temível surucucu.
A maioria dos curandeiros, porém, era constituída de pilantras
enganadores, dos quais eu presenciei fatos hilários que bem
mereceriam entrar para uma antologia de “causos”. Tinha uma
gordona do Curumucuri que se gabava de fazer galo dançar e um outro
que apareceu no Paraná da D. Rosa, dizendo que havia morado um
tempo com os botos, no fundo do Rio Amazonas, e que, além do poder
de cura, também se alimentava comendo vidro. Esse ficou soltando
fogo pelas ventas porque meu pai o chamou de trampolineiro e
resolveu desmascará-lo. Isso aconteceu numa noite, quando fomos com
esse propósito assistir a uma sessão de cura na barraca da dona
Ana Sarmento, uma senhora idosa e doente que pouco tempo depois veio
a falecer. Primeiro foram as cantorias e depois um fumacê
repugnante de charuto barato, que fez a velha Sarmento quase morrer
de tanto tossir. Depois, para demonstrar seus poderes e humilhar meu
pai na frente dos presentes, o curandeiro apanhou um copo e nhac,
nhac, nhac, foi roendo, mastigando, para, no fim, só restar o
fundo. Aí, dedo em riste, dirigiu-se a meu pai: -
Não foi o senhor quem espalhou que eu não comia vidro? Pois veja.
E agora? Meu
pai pediu outro copo, botou vidro em pó que ele havia preparado em
casa, misturou com água e entregou a ele. -
Se o senhor come mesmo vidro, então beba esse copo inteiro. -
Ah, mas assim não pode, não pode!! -
Não pode porque o senhor não come vidro merda nenhuma. Isso é
truque que o mágico Tassu faz lá em Óbidos, escondendo o vidro na
bochecha. Depois é só cuspir como o senhor fez. Munido
de uma possante lanterna, meu pai foi mostrar a todos o visível
escarro de vidro no lado do barraco. O curandeiro foi expulso na
mesma hora pelo dono da casa e logo tomou sumiço do Paraná da D.
Rosa. Outro fato se deu com uma curandeira de Manaus que apareceu no Paraná da D. Rosa tentando arrancar dinheiro e alimentar esperança nas pessoas. Quem acabou com as pantominas dela foi um tal de Zé Justino, caboclo malandro e metido a versejador que um dia apareceu num barco boiadeiro e passou uma temporada como serviçal da minha vó. Tudo aconteceu numa noite de Sábado, quando Zé Justino já tinha tomado umas e outras e resolveu assistir os trabalhos de cura. Como era o único na platéia que sabia ler mais ou menos corrido, foi convidado a sentar ao redor da mesa para anotar as receitas. A coisa começou a complicar quando, numa receita de banho que indicava folhas diversas e uma pimenta malagueta, ele lascou logo vinte pimentas malaguetas. E assim foi noite a dentro, a cana subindo, o juízo sumindo, com perdão da rima. Aí, num repente, Zé Justino começou a estrebuchar, a fungar, a revirar os olhos e a se jogar no chão contorcendo a boca. Com o ambiente tumultuado e depois de longa e meditativa concentração, a pajé pediu silêncio porque tinha incorporado no Zé Justino o poderoso “Pai do Campo”. Pois mal ela acabara de invocar a entidade, o caboclo se levanta de olhos arregalados e manda ver no ponto do guia: Eu
sou o caboco enrabador Eu
sou o caboco enrabador Eu
amarro todo mundo Com
as cordas da envireira E
agora vou tratá De enrabá essa curadera Ato seguinte, ainda possesso, pula como um gato e se atraca firme no traseiro da mulher, provocando de pronto a ira do marido, de alguns dos presentes e sonoras gargalhadas de outros, gerando uma baita confusão que se estendeu pra tudo que era ilharga, transformando a sessão de cura no maior porradal que já se teve notícia naquelas bandas. |
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