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Alessandra Gorayeb Martins,
16 anos, estudante (conveniante). Amante das palavras, apenas. Prosas como escape do cotidiano. Ou hobby, ou apreço.
alegorayeb@hotmail.com
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Lembranças

Alessandra Gorayeb Martins

4 de dezembro de 2003

 

Dizem que se conselhos fossem bons não se dava, se vendia; então disfarça-los-ei em momentos de sabedoria numa folha rabiscada outrora vazia.

– Doutor, ó doutor! Me diga o que eu tenho, por favor...

– Hum... vejo que tens preocupação. Isso te tira a razão...

– Que razão?!

–A razão de viver.

–Então vou morrer?

–Vai, meu bem.

–Ai ai... quando isto me irá acontecer?

–Não sei. Pode ser amanhã, depois, ou daqui a cem anos.

–E o senhor fala assim, com tamanha indiferença?!

–Que posso fazer? É a sua sentença.

Como a resposta metera-me medo, fui embora. Corri para fora. Com uma pressa diferente. Não era a pressa por um compromisso, mas a pressa para achar um sorriso. Corri para fora. Corri para a vida.

(lá dentro o doutor sorria. “Ela há de descobrir... um dia...”)

Corri lentamente. Uma vida bela pela frente. Uma morte iminente. Corri adiante. Uma borboleta voava. Apostei uma corrida, uma corrida colorida, sem um ponto de chegada nem sequer um de partida. Um casal de mãos dadas; era eu e alguém, que de mim não mais lembrava. No relógio mais seis minutos depois do médico e meus soluços. Era a minha vida que passava.

Apostava com a vida. Apostava pela vida. Corri por lugares que nunca havia passado. Corri por memórias que nunca teria lembrado.

Lembrei de quando balbuciei uma pequena palavra, e com ela reguei o rosto de meus pais com a inocente graça; de quando pus meus pezinhos no chão, no início caia, depois, desajeitada, eu erguia; de quando, por pura brincadeira, me escondia debaixo da cadeira; de não querer crescer, mas que logo depois esquecia e brincava de ser mãe; de quando ficava quietinha, e quando fazia aquela confusão para ir brincar com a amiguinha; que me realizava quando chovia e eu estava na piscina, e que no outro dia dava aquela agonia por causa do maldito resfriado;

Lembrei de que chorei quando veio a primeira menstruação, eu já era mulher e só tinha uma criança no meu coração. Lembrei das viagens, dos passeios, de como fiquei feliz quando aprendi a fazer bolinha de chiclete; de uma hora desejar independência e na seguinte demonstrar carência; dos desejos de voar, de inventar, de entender, e de descobrir que não devemos tentar entender certas coisas;

Lembrei de ter rido até perder o fôlego e depois ficar com câimbra na bochecha, de ter corrido sem destino e me esfolado para depois aprender que devemos sempre ter uma meta; de ter falado e ouvido tanto que daria para escrever mil livros; da primeira vez que meu coração bateu por alguém e eu nem imaginava o que poderia significar (pensando bem, não sei até hoje), e do primeiro beijo numa noite de luar; das alegrias, dos sofrimentos, e de eu me condenar por não saber separar quem servia ou não pra eu amar; de ter chorado tanto a ponto de poder me afogar com as próprias lágrimas e de ver depois que ele não merecia o meu pranto, que ninguém é insubstituível sendo, mesmo assim, único em seus defeitos e qualidades; de conversas no telefone, relevantes para os outros, mas que me faziam sonhar, e de quando ficava aflita esperando o telefone tocar

Lembrei que já tive milhares de colegas e pouquíssimos amigos de verdade. Sim, lembrei dos amigos. E lembrei também que aprendi a não contar certas coisas a um colega, pois ele tem outro, que por sua vez tem outro...; lembrei das horas passadas na frente do espelho vendo enormes imperfeições, e de tantas outras a pensar na solidão; do meu sonho de achar a pessoa certa, de amar e ser amada; da minha vida, das chegadas e partidas, dos meus méritos e minhas perdas; das emoções; das desilusões; das infinitas lições; dos momentos difíceis que sempre traziam a união.

Lembrei disso e muito mais... lembranças que não tivera nunca mais.

Parei. Para quê correr?! A troco de que?! A vida está aqui, não posso fugir dela! A borboleta aqui, do meu lado, não está cansada, nem eu. Ansiava pela vida, pois ela está aqui e é agora. Virei e voltei. Caminhando e apreciando as paisagens repletas de poesia. Vou agora realizar o meu sonho, pois viver requer um objetivo. Amar e ser amada. Este é o meu desejo.

Cheguei depois de seis horas. Seis horas?! Já se foram seis minutos e seis horas desde que saí do consultório. Já está tarde. Mais seis horas já é noite. Mais seis dias, seis meses, seis anos, seis, seis, seis.... sessenta anos!

O tempo voa, vai passar. Mas vou continuar caminhando pela vida, sem pressa, só vivendo. Aprendendo a viver. A falar e a ouvir. A querer e esperar. A sofrer e a amar.

Engraçado... só agora, depois de uma tarde inteira é que fui entender as palavras do doutor. A razão de viver é estar aqui e agora, sentindo a vida e a deliciando, sem pressa nem preocupação.

 

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