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Alessandra Gorayeb Martins,
16 anos, estudante (conveniante). Amante das palavras, apenas. Prosas como escape do cotidiano. Ou hobby, ou apreço.
alegorayeb@hotmail.com
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A vida que se desfaz

Alessandra Gorayeb Martins

02/02/05

 

De tudo um pouco. Já fui bebê e chorei; fui criança e corri; adolescente, namorei; fui adulta, trabalhei. Também já tive meus filhos – que já trabalham – e meu marido – que Deus o tenha... Uma vida feita, diriam os mais jovens. Prefiro dizer... desfeita.

            Os tempos vêm e vão, pessoas vêm e vão, momentos vêm e vão. As marcas vêm e ficam. E tudo deixa marcas. E tudo se torna eterno, até aqueles instantes perdidos em um olhar silencioso... E agora, com os anos formando rugas na minha pele, com as marcas cravadas no meu corpo, com todos os sinais que não me deixam esquecer, não possuo mais lágrimas nem motivos para chorar ou dores para sentir. É que para o bebê o mundo é novo – para mim, já é costume.

            E quando, com a filha novinha, aprendi o que é tecnologia, e que não é estranho namorar por um dia, e que até o amor está desgastado e tudo agora é descartável nessa nova era tecnológica, nessa invenção sem fim de estereótipos, de amizade, de dependência, de linguagem, de confiança, de amor... E quando uma vida entra em jogo, a tecnologia recorre às tradicionais filas dos hospitais. É que, para a adolescente, o mundo é para namorar – para mim, apenas recato.

            Os tempos enfraquecem. E o filho mais adulto explica que não precisa mais usar a força, que as máquinas agüentam. E descubro que a magia do manual foi dada por incompleta, ou insuficiente; o artificial é o novo culto mundial; o culto de um mundo que meus filhos vêem “globalizado”, mas eu ainda vejo “singular”. Minhas mãos agora tremem, o trabalho me deu seu presente, e o hoje novamente recorre à tradicional espera para uma justa previdência social. É que para os adultos, o trabalho é perfeição – para mim era a paixão.

            E quando o que antes era dito “um corpo escultural” começa a sofrer as lapidações e a ser moldado pelo destino, o mundo estigmatiza e a “plástica” passou a ser a nova deusa. O sentimento segue a estética e os filhos são racionados. “Quanto menos melhor” – em outros tempos, os filhos mediam a força da união. E o mundo cultua essa racionização; são pílulas, preventivos, informações conhecimento. Tudo para que não nasçam. Já quanto aos do outro extremo...

            Os tempos chegam a assustar. A frieza ocupa um estranho lugar. Enquanto para mim se casava por amor, hoje se casa para fugir da solidão. Um vive com o outro no sentido técnico da expressão. É só para evitar o tédio, ou para agilizar a divisão dos trabalhos, ou para estabelecer limites em uma nova concepção. É que todos os conceitos mudaram e tudo que eu acreditava ficou retido na retina desgastada, ou na memória falha. E as rugas no espelho, as mãos engilhadas e trêmulas, e os olhos lacrimosos e aparentemente vazios, confundem a verdadeira situação. É a vida que se desfaz.

 

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