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Alessandra Gorayeb, 
16 anos, estudante (conveniante). Amante das palavras, apenas. Prosas como escape do cotidiano. Ou hobby, ou apreço.
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 Cinzentos como o cimento do céu

Alessandra Gorayeb Martins

16 de março de 2005

 

“Tudo já aconteceu uma vez. Repetições”, era o que costumava dizer. Seu rancor era tão denso que aos que estavam a um considerável raio de distância, mostrava-se palpável e pesava no ambiente. Trabalho. Rotina. O medo de todos era consolidado na vida dele. Pouca coisa o distinguia de uma máquina. Muita diferença, porém, no ato de pensar. Em pensar, se condenava. “Repetições”.

 Ele pregava seus princípios. Cuspia palavras na cara dos funcionários: “Vocês sabem o que fizeram! Sempre souberam só falta lembrar. Agora lembrem!”. Era grosso. Sabia o que falava, porém sua experiência era visível nas mechas prateadas e nas rugas estreladas sob os olhos. Naquele dia, fugiu à sua rotina. Tarde ventosa. Céu de cimento. Ar carregado. Moldura perfeita para um passeio. Deixou passar a ironia, foi a um antiquário.

O lugar servia como metáfora da sua vida. Estava frio, empoeirado. O ar parado inchava seus pulmões. Os objetos antigos vestiam etiquetas com valores novos. Reutilização. Repetição. Numa atitude impensada (algo nada comum na sua vida), deixou cair um relógio da parede. O pêndulo rachou deixando o tique metálico reinar absoluto. Outra ironia. Um relógio quebrado em um lugar onde o tempo estático era “cultuado”.

Caminhava penosamente pelas fileiras de bugigangas. Ninguém o atendera. Passava os olhos, cinzentos como o cimento do céu, pelas prateleiras, desinteressado. O pensamento não estava lá. Tinha sono. Aquelas coisas todas já foram de alguém. Que atenção chamariam de uma pessoa alheia à sua história? Ele andava em círculos. O pé topou em algo. O relógio. O tique-taque deveria parar. Resistiu novamente. Mais forte. Os olhos ofuscaram de espanto...

Diante dele – outrora desinteressado, sonolento, carrancudo, frio – um volume se assomou. Não estava ali antes. Passos não foram ouvidos. Repetições!! Não podia ser... Nunca fora a um antiquário antes! Mas o céu... cinzento. O desinteresse anterior, o ar pesado.Tique-taque-tique-taque. O relógio! O pêndulo quebrado, o tempo parado! Ele dava voltas, o ponteiro dava voltas, tudo dava voltas em torno de sua cabeça. Mas “aquilo” estava à sua frente.

Ele encarava uma Bíblia manuscrita. Faltava sentido! Nunca fora católico. Sua mente, sempre controlada, afirmava que já estivera ali, já quebrara o relógio e... a Bíblia! “Posso ajudá-lo, senhor?”. Alívio. Ele explicara tudo a alguém, enfim. A atendente afirmava que não passava de coisas de uma mente cansada. “Déjà vu”, explicou com um biquinho. Ele dera de encontro com seus princípios... Os olhos, cinzentos como o cimento do céu, davam voltas. Nem tudo era uma repetição.

 

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