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![]() Carlos Correia Santos, Jornlista, poeta, escritor, contista e cronista. cacopoeta@hotmail.com
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Um jantar para Karina Kallef Carlos
Correia Santos Antonín e aquilo, aquele querer ajudar a irmã. Karina e aquilo, aquela tristeza tamanha, tamanho desolar-se. - Sei que posso fazer alguma coisa para que todo mundo fique um pouco melhor – Era a boa intenção do rapaz. Otimismo de garoto. Quem, aos 14 anos, como ele, não costumava achar que mesmo os fins bem poderiam ser equívocos? E Karina foi doce seca: - Já não mais, meu irmão. Já não mais. O que fazer? Tudo se foi, tudo se foi... E ele, ajoelhando-se junto a irmã encolhida naquele canto do quarto, ele se deu a ansiedade: - Não, Karina!... Eu não sei, mas... Talvez se eu inventasse alguma coisa, se eu fosse falar com ele, depois com ela... Os dois... Karina, a lágrima a cair pela face de menina de 16 anos. Lágrimas como pétalas de rosas. - Eu acabei com os dois. Não tem mais os dois... Por minha causa eles nunca mais vão querer saber um do outro. Mas Antonín era não desistir. - Eu vou fazer algo – sua ênfase doce frágil. E, erguendo-se, a andar de lá para cá, contorcendo as mãos. - É só criar uma situação. É só pensar num pretexto! Súbito, o nascer da idéia. A grande idéia, filha dos ímpetos que ninam o adolescer: - Claro! É isso!... Vou pedir para os empregados prepararem um jantar! - Um jantar, Antonín! Que absurdo! Nessas condições!... - Sim, um jantar romântico! Digo que eles têm de ir para me fazerem um agrado. Eles vão querer!... Na verdade, será surpresa, não direi do que se trata. Peço para que desçam as oito horas e lá estará tudo! - Antonín! - Deixe comigo, minha irmã. Isso vai acabar! E, numa carreira, o beijar a irmã – ainda ali, encolhida naquele canto –, um sorrir pueril e um sair do quarto, estabanado. No ficar, uma Karina descrente, abraçada aos próprios joelhos. No ir, um garoto crente do poder de mudar as coisas. - Posso entrar, mamãe? Mesmo sem o assentimento, Antonín invadiu o aposento de Walkíria Kallef. Ambiente em que se guardar tanta sombra, tanto peso. Lugar em que se dormir lassidão. O garoto sentou-se na cama, pseudo sorridente. A mãe prostrada na cama, veramente apática - Só um pedido, mamãe... Posso lhe fazer só um pedido? Como quem olha num não olhar, ela o olhou. Lágrima a cair dos olhos. E como quem nada ouvira, o murmúrio: - Não você, Antonín... Prometa-me que nunca você - Mamãe, ouça. Preciso de um favor seu. Sei de tudo, claro que sei das suas limitações, mas... quero que de noite você vista algo bonito e desça para a sala de jantar. E Walkíria virou o rosto para o outro lado, como se nos outros lados pudesse haver soluções. - Você sabe que não posso, Antonín. Para que isso agora? - Por favor, mamãe... É seu filho que está pedindo Com aquilo ela tornou a olhar para o filho. Desta vez, como quem mira o raro. Um afago doce quebradiço no rosto de Antonín. - A senhora faz isso por mim, mamãe? E minutos depois lá estava Antonín no outro lado da casa. - Posso entrar, papai? Um assentimento quase imperceptível e o garoto se pôs dentro do quarto de Ivan Kallef. E o que se punha ali dentro era vazio. Um nada que se arrastava por aquelas enormes paredes, um nada que sequer permitia abrir as janelas. - Filho... – Ele disse isso como quem quer dizer alegria, mas a voz mantinha uma recusa em se fazer amena. O olhar, então, era apenas ver o piso, nada mais. O nó na garganta de Antonín era já quase grito. Mesmo assim, falou baixinho: - Pai... quero um favor seu. Ivan riu. E naquele riso morto havia um “e como posso realizar favores, meu garoto? Como?” Mas o garoto continuou: - Hoje a noite, quero que vista uma boa roupa e venha conversar comigo na sala de jantar. Às oito, sim? “Não! Claro que não!”, foi a raiva interior de Ivan. Mesma raiva que desse modo se exteriorizou: - Agora mais essa, Antonín!... Vestir uma boa roupa? Quero morte às boas roupas! Quero morte... - Meu pai, por favor. Eu preciso disso. - E eu não preciso disso. - Mas... - Sem qualquer mas, Antonín! Até porque, há um mês, tudo para mim é nunca mais! - Até eu, papai? Foi um calar fundo aquele. Ficou-se, por alguns segundos, o silencio do desespero. - Meu filho, entenda... - Às oito, papai – Foi Antonín se levantando, taxativo, como se tão forte – Às oito. E partiu Antonín Kallef. O que precisava no momento era agilizar o belo jantar que planejava. Oito horas da noite. Luz de velas. Velas... Mesa farta. Farta... O jantar fora servido mesmo com luxo. Sentado ao meio da mesa, Antonín esperava pelo momento em que as cabeceiras seriam ocupadas. E quem primeiro chegou, num andar quase sem passos, foi Ivan. A cabeça baixa, alta melancolia. Sentou-se. Não quis encarar o filho. Quis apenas dizer: - Eis-me aqui. E agora? Foi nesse agora que surgiu Walkíria, figura que só se sabia existir porque parecia estar ali. Parecia porque seu chegar foi quase como o movimento de quem parte, triste. Ao depararem um com o outro, Ivan ali sentado e Walkíria ali em pé, o casal trocou aqueles pesados olhares que nascem quando o amor mergulha no ódio. Culpa e culpar. Mágoa e magoar. Dor e dolorir. E os dois, os olhos sobre Antonín. E ele: - É isso mesmo. Tinha que arranjar algum modo de fazer com que vocês se reencontrassem. Já faz um mês!... Um mês e, apesar de morando na mesma casa, vocês se têm como se morassem em dois países diferentes. Ivan quis levantar-se e ir embora, mas ficou. Walkíria quis girar nos calcanhares e sair, mas sentou-se. Quem tomou a iniciativa definitiva de ir-se foi Antonín. Retirou-se da cadeira devagar. Foi até a mãe, beijou-lhe a testa. Foi até o pai, beijou-lhe a mão. E saiu da sala de jantar. Fez-se, pois, o semelhante a eras de mutismo. Mas o nada dizer encontrou finalmente seu dia de fim: - Se soubesse que era para isso eu não teria vindo – lançou Ivan – Não suporto, sabe? Não suporto essa tua presença! E Walkíria um erguer d’olhos arrastado: -
Mas não foi para isso. Não foi para esse teu ferir-me! Antonín
quis que... - Querer, Walkíria? Queria eu sequer saber teu nome! O grito dela: - Mas tu sabes. Sou a tua esposa, a mulher com quem construíste a tua vida! - Construir vidas! Tu ainda falas em construir vidas? - Será possível que tudo é nada mais. Nada mais tem valor para ti? - E para ti, tem? O engolir em seco na contrita garganta de Walkíria - Sabes bem que não! - Ora, vivas! Finalmente dizes o que de fato! Num gesto trêmulo ela enxugou as lágrimas - Como podes ser tão impiedoso? Como? Pelo rosto trêmulo, ele deixou caírem as lágrimas - Como podes não ter piedade de mim e sumir de uma vez? Era o estopim, ela se ergueu violentamente. O prato e os talheres próximos quase foram ao chão. Ela se ergue e bradou: - Achas que eu queria? Se eu pudesse imaginar jamais teria entrado naquele maldito carro. Jamais teria me sentado em frente aquele maldito volante! Achas que pus Karina naquele carro e me atirei àquelas capotagens porque a vida toda fora esse o meu plano?! E ele se pôs em pé com furor. Foram ao chão os talheres ali próximos. Ia gritar, ia urrar, ia explodir em vociferações... Mas, ao fim, explodiu em pranto. E traduziu tudo num murmurar cortante - O que sei é que Karina... Minha filha... Karina... O que sei é que Karina está morta. Escondido lá no alto das escadas, ouvindo tudo, Antonín chorou... Walkíria precisou se apoiar no tampo da mesa, o doer foi insuportável. Um cortar, um cortar... - Tenho vivido cada dia para me arrepender daquele dia desgraçado. Por que tinha de ser eu naquele volante? Por que tinha de ser eu naquele acidente terrível? Por que teve de ser ela e não eu?... Por que? - Sim – Era o rancor de Ivan – Por que não você? Por que ela morreu e você não? Você matou a minha filha dirigindo aquele carro... - Nossa filha! E eu não a matei! Chorava Antonín em seu refugio no escuro, a ouvir! O rosto de Ivan se escondendo entre suas mãos... - Eu sei, meu Deus, eu sei... Mas... - Posso ter matado a mim mesma em vida, posso ter matado você em vida. Podemos estar matando Antonín... Mas não fui eu quem matou Karina. Foi acidente. Ivan finalmente teve coragem de olhar no fundo dos olhos sem fundo de Walkíria. Ali estava tanta coisa. Ali estava, afogado no choro, os sorrisos do ontem, registros do que fora ser feliz. Ali estava ele próprio suplicando para perdoar a esposa. Perdoá-la pelo que ela não tinha qualquer culpa. Foi como se a mão de Karina o levasse até Walkíria. Foi como se um resto de vida da filha quisesse morte para aquela inconformação sem justificativas. Walkíria se deixou envolver no desesperado abraço do marido como quem se envolve na seda da calma. Pediu velórios para seu remorso, recebeu a flor de um beijo em sua boca. No seu esconder-se, Antonín riu. Correu para o quarto, abriu a porta e lá estava. Encolhida num canto do recinto, coberta de pétalas de rosa, a boneca com que Karina brincara toda a infância.
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