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Danilo Marques de Lima,
Engenheiro Químico, e caseiro do site Nowhereland

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Este texto é dedicado a todos aqueles que nasceram, viveram ou que têm parentes em cidade pequena.

 

Histórias que não te interessam

Danilo Marques de Lima

19 de julho de 2004

 

Eu sou Danilo de Diva, Diva filha de Miguelzinho, o que tocava violino na orquestra de Isabelinha Chica, ainda quando ela não havia jogado a flor na festa de Fernando Caipora. O anfitrião da comemoração mandava mais que o prefeito que mandava menos que o pistoleiro Diógenes que lhe comia toda noite, e talvez por lógica correspondente Caipora jamais imaginaria que a descortês Isabelinha arremedaria de seu agrado justo em noite da morte do Boi, lançando ao chão a gérbera amarela que o dono da festa não teve paciência de procurar trocar por outra mais bonita.

Tinha quase tanta testemunha no dia do "fora" que o Fernando levou da Isabel desaforada quanto no enterro de Miguelzinho, de quem Diva de quem eu sou é filha, de quem ficaram órfãos sete filhos, vinte netos e mais de cinquenta e lá vai porrada afilhados. Em nenhum dos dois acontecidos teve fotografia, não, o primeiro foi em 1965, quando cú-de-pólvora ainda era prefeito e a orquestra ainda existia, e o segundo ano passado, quando Filuca neto de Caipora já pensava na reeleição que está tentando esse ano. É ele pra quem o marido da minha tia, Antônio de Seu Zico, boca de sunga sem elástico, está montando as estruturas de ferro do carro de som.

Antônio conheceu Caipora bem velhinho, quando levou andando uma pamonha que seu sogro Miguelzinho, que hoje toca violino no céu, mandou entregar. Não tinha nada de diferente naquela pamonha, e além do mais nem era muita pamonha, e só a gentileza justificava aqueles cinco quilômetros a pé. Por conta daquela pamonha, eu, que nem era nascido quando esse milho foi colhido, tenho que insistir pra pagar a cerveja no bar da parentada do finado Caipora, que se não fosse semelhante insistência dos clientes já teria fechado por excesso de cortesias. Lá em Belém se sabe que as receitas devem ser maiores que as despesas, e é só assim que se pratica, e lá um montão de bar fecha mesmo assim enquanto que do Tião de Caipora permanece aberto, com toda a concorrência igualmente generosa.

Não conheço muita gente por aqui, principalmente da minha idade, mas todo mundo me conhece. Afinal eu sou de Diva, não sou somente eu, avulso, sem propriedade, é como se eu estivesse no catálogo. Da minha idade tem o meu amigo Jefferson, que não é de ninguém que eu saiba, mas deve ser. Tem a minha amiga Giovanna, bonita que só ela, que é de Margareth, vizinha da Raimunda irmã do Filuca que ficou rica do nada. A rua da casa de Miguelzinho tá asfaltada, e todo mundo em peso vai votar nele. Menos o Antônio, que além de boca grande tem um nariz enorme, famoso ladrão de oxigênio, que foi enrolado com o negócio do carro de som. Mas ele não diz isso pra ninguém, só disse pra mim porque tava bêbado.

Você e eu não gostamos que ninguém se meta ou saiba das nossas vidas. Nós sabemos poucas histórias bobas, as que não nos envolvem não nos interessam. Pelo menos nenhum quase desconhecido vem entregar pamonha na nossa porta sem que a gente encomende e sem nenhum interesse. E o que a gente compra, compra com o nosso dinheiro. E é por isso que em Belém valorizamos pessoas gentis, porque nos espantamos de tão raras que as gentilezas são.

Descanse em paz, meu avô, que aqui na cidadezinha das gentilezas, onde as pessoas são das pessoas, onde as pessoas sabem das pessoas, tá tudo do jeitinho que deixaste. Até o violino, que eu limpei hoje, nele eu deixei um velho que se dizia seu amigo e que entrou sem bater tocar uma marchinha. Ele tocava mal à beça, tá com glaucoma e o negócio dele é vender tempero; ele do nada me deu três macinhos da sacola e eu não soube o que fazer porque nem cozinhar eu sei. Dei pra mamãe, que nem me perguntou de onde vinha.

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