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Danilo Marques de Lima,
Engenheiro Químico, e caseiro do site Nowhereland

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Cleptomania: eu quero uma pra viver

 

Danilo Marques de Lima

 

Os frentistas não dispõem de sua total confiança. Ele supõe ser necessário descer do carro para certificar-se do cuidado do funcionário do posto ao levar o injetor da bomba de gasolina à boca do tanque. Afinal, um frentista incauto inevitavelmente mancharia a lataria com gotas de combustível. O ataque do líquido à pintura perolizada suscitaria um efeito estético indesejável, além de conduzir a um provável deságio no valor de revenda de seu automóvel.

Por meio de uma clareza didática irresistível, ele explica a razão por trás desta e de mais algumas vinte e oito manias, dentre as quais esquentar por cinco minutos um carro com injeção eletrônica, varrer o jardim aos domingos imediatamente após o almoço, de espalhar o mais uniformemente possível e de maneira minuciosa o arroz sobre o feijão (e inexplicavelmente bagunçar tudo logo depois), e o vício de ficar ouvindo por horas um inebriante som de tesoura cortar o vazio. Ele é meu pai, e eu começo a diagnosticar que está enquadrado num quadro patológico inicial de transtorno obsessivo-compulsivo.

Apenas pra uma dessas manias não surge imediatamente uma explicação plausível, mesmo que falaciosa: o hábito subversivo de subtrair artigos de venda de grandes estabelecimentos de comércio a varejo. Foi isso mesmo o que você leu. Afanar, ganhar no bate-fica, dar o conto, ser dedos-leves, roubar, entocar os produtos do supermercado. De sabonetes a barras de chocolate, passando por shampoos, queijo prato e até pequenos vidros de azeitona (?), ele esbanja técnica e perícia ao rebaixar fiscais, seguranças e sistemas modernos de proteção por câmeras à condição equivalente a de vigias noturnos de mercearias do interior. Equipado com calças com bolsos de capacidade inacreditável, ele me serviu de inspiração para este texto quando dei por lembradas as origens do shampoo, do condicionador, do sabonete e do desodorante que eu estava usando ao tomar banho antes de sentar na frente do computador.

Qualquer um ficaria boquiaberto ao ouvir uma explanação de seus métodos furtivos. Como meu objetivo não é incitar a contravenção, ou fazer apologia ao crime, deixo vocês na curiosidade. Nosso anti-herói acredita já ter dado, a este ponto de sua brilhante carreira, um desfalque de aproximadamente trinta mil reais a uma das maiores redes de supermercados da cidade. Conhece as falhas de todas as filiais. Conhece a disposição das microcâmeras em todas elas. Conhece, com vínculo ironicamente amigatício, seus principais gerentes. Poderia eu me perder numa interminável anástrofe com a palavra "conhece", mas acho que já é o suficiente pra vocês avaliarem o naipe deste indivíduo.

Mas certa vez ele sucumbiu ao medo. A caixa do supermercado solicitou que se encaminhasse à recepção. Neste momento, todos os cantinhos de seu corpo ficaram trêmulos. Acredito que os três pares de pilhas alcalinas e a lata de graxa pra sapato enfiados em seus superbolsos também chacoalharam por concussão. O homem que o estava esperando, acompanhado por duas bonitas recepcionistas, recebeu-o com um sorriso altaneiro e com um bolo com vela de estrelinha. A compra que tinha feito com o cartão interno da loja identificara ao departamento de marketing o seu aniversário. Além do bolo, beijinhos das moças, um "parabéns pra você" desafinado e um "volte sempre" foram a ele concedidos. Com um impagável cinismo sádico, aceitou as oferendas, retornou seu orifício anal ao diâmetro original (orifício pelo qual nem um elétron lubrificado se infiltraria no momento de tensão) e ainda saiu tirando sarro: "Pensei que estavam me felicitando pelo milésimo par de pilhas afanado". 

Questionado pela ausência nas prateleiras de uma de suas marcas de sabonete preferidos, um dos gerentes-amigos confessou ao seu amigo-da-onça que a loja não estava tendo retorno com a venda daquele produto, e que haviam suspendido as remessas. Sorte que o nosso precavido protagonista já possuia um estoque de umas sessenta unidades bem guardado. Quando eu soube do fato, automaticamente minha mente aloprada realizou uma revista Veja com a foto do meu pai estampada na capa acompanhada da manchete: "O homem que destruiu a Gessy-Lever". Rapidamente abandonei o momento Fantástico Mundo de Bobby para ouvir que seu amigo havia lhe confessado que todos os supermercados acrescentam uma alíquota percentual sobre os valores brutos de venda dos produtos, para compensar o elevado índice de roubos. Não é só aqui não, é em todo o país.

Eis que surgiu a explicação da mania. Plausível. Mesmo que falaciosa. Deste dia em diante, meu pensamento é o seguinte: "Se ele não fizer sua parte costumeira, quem sai lesada é a sociedade". Mesmo que ele pare, o adicional anti-furtos permanecerá em utilização, indubitavelmente. E é isso. É ele nosso representante na luta contra o capitalismo selvagem praticado pelos megaempresários do comércio varejista. Ovacionem-o, leitores. Trata-se da figura emblemática do mártir satisfeito, que se arrisca de vez em quando para praticar atos desnecessários a nossa condição financeira, só pra exercitar uma brilhante capacidade inata. Eu já pedi que parasse, mas no fundo, porém nem tão lá no fundo, eu me divirto.

E você, leitor dedo-duro, ou você, leitor autoridade competente, conforme-se em ter lido um texto de ficção. Não existem evidências da veracidade do que está escrito aqui. Eu queria era ter uma imaginação menos fértil e parar de narrar factóides. Portanto, prenda-o se for capaz.

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