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Danilo Marques de Lima,
Engenheiro Químico, e caseiro do site Nowhereland

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Erik, cidadão da Mauritânia

Danilo Marques de Lima

 

Provação maior do que a de assistir às brincadeiras de Erik e de seu avô maroto, pra mim, só mesmo passar a noite vestido com camisa de manga comprida dançando as pérolas do Calcinha Preta na causticante e cubicular Casa de Show Forró Sala de Reboco, coladinho com uma pipira que se chame Kelly, que esteja ávida por uma carona até o Panorama XXI, indiferente à minha disposição, e que ainda se encontre terrivelmente perfumada com o laxativo Biografia da Natura.

Erik talvez não saiba, mas seu avô tem um problema auditivo. Talvez Erik também não saiba, mas a Mauritânia, país onde ele provavelmente reside, é a nação do globo terrestre com menor acesso à comunicação televisionada, de acordo com pesquisa encomendada pela UNESCO. Possivelmente por esta razão lamentável, o hoje adolescente mauritanês Erik permanece ignorante à deficiência de seu avô, não obstante, a exibição diária do comercial em que avô e neto, felizes africanos brancos do pós-apartheid, revelam um pouco de suas vidas numa região temperada e urbanizada do Saara virtual. Para nós, incluídos nos canais da superinformação, é definitivamente estressante ter que estar exposto à propagação intermitente deste e de uns outros anúncios, estando despossuidores do mais desabonado poder de controvertibilidade. Nem interessa se, mesmo sem querer, há sete longos anos já andamos adquirindo vasto domínio técnico e teórico sobre as sete bandas de frequência que permitem ao decrépito senhor mazelado do deserto ouvir uma grande variedade de sons.

Mas também existem algumas outras provações no que se refere ao exercício prosaico de absorver a publicidade. Exemplo: é bem necessária uma generosa dose de serenidade, de preferência injetável, pra manter a tranqüilidade incólume à apreciação de uma propaganda de espelunca pré-vestibular. É intrigante que, por mais modesto que seja, cada um destes coleginhos obtêm valorosos índices de aprovação de no mínimo 92% nos processos seletivos. E desde que grandes estabelecimentos começaram a divulgar suas equipes de professores famosos em outdoors e anúncios televisivos, os cursinhos da segunda divisão também acharam-se compelidos a compartilhar conosco os nomes de suas seleções de superstars do showbusiness da ensino-aprendizagem. Daí, não é raro deparar-se sempre com escalações estáiles do tipo:

 

Geografia: Paulo Wéscley, Álvaro e Luís Nogueira

Física: Wellington Silva, Otávio Meira e Augusto Reis

Língua Estrangeira: Elvira e Sérgio "Bob Marley" Vieira

Literatura: Maurílio e Mário Henrique

 

Se eu inventei esses nomes? Se li por aí? Tanto faz. Você nem perceberia a diferença. Já ouviu falar dessas figuras? Quer tomar conhecimento de suas robustas opiniões sobre a globalização, a crise dos combustíveis fósseis ou sobre os estrangeirismos? Não? Nem eu.

E vai um toque: reserve suas ampolas de serenidade pra imunizar-se àqueles jingles medonhos, interpretados por vocalistas de boteco com entonação de Quero-Ganhar-O-Grammy, aos já massacrados canais de televendas, aos emagrecedores milagrosos à base de fibras, aos computadores que são potentes porque já vêm com vinte programas instalados. Aff.

Putz. Erik que é deveras feliz, porque não tem TV em casa e não vê comercial infame. E o avô dele também, porque seleciona o que escuta através da simples ação de enfiar o dedo no ouvido. É, leitor. Acredite. Ouvir baboseira é muito pior do que usar um minúsculo aparelho auditivo como esse.

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