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![]() Danilo Marques de Lima, Engenheiro Químico, e caseiro do site Nowhereland
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Excursão
no inferno [city
tour, by night & chá de espinheira-santa] 13 de fevereiro de 2004 Danilo Marques de Lima
Quarta-feira,
11/02, 20h25, quarto da minha mãe
- Alô, Danilo, aqui é o Éderson. - Fala, rapá. - Pelo amor de Deus, por tudo que há de mais sagrado: quanto deu a tua quarta questão? - Distribuição nacional, valores esperados de 5,0 e 3,14. A tua não deu isso? -
Deu. Mas tá errado. O professor havia resolvido a questão como exercício
em anos anteriores e os dinossauros tinham a resolução. A resposta é
distribuição regional com tendência à expansão. A gente não vai
se formar nesse ano, cara. Só com um milagre de Deus. (...) Desliguei o telefone após um sorumbático par de minutos de silêncio mútuo, intercalado com palavrões sintomáticos, no involuntário exercício de classificar a resignação como passaporte para as trevas. As bactérias da espécie Helicobacter pylori, hospedeiras responsáveis por uma gastrite crônica de fundo nervoso, reproduziam-se no meu estômago em progressão não menos acelerada que as lágrimas nos meus olhos. Chorar de tristeza, a bem dizer, era evento que não me ocorria desde a morte de um amigo meu, há quatro anos e meio atrás. Da lembrança sinérgica, arrebatou o choro duplo. Acabavam-se ali uma auto-estima ilibada, as prováveis oportunidades, o capricho de tornar-me engenheiro aos vinte anos, a motivação, a motivação e a motivação pras coisas. Eu estava no inferno sim. Aguardava, a cada instante atemporal, por uma mão cáustica e fedida que me aplicasse um tapinha sarcástico nas costas: 'aê, my boy, a minha graça é Capeta, galera me chama de Esquerdinha e eu tenho um caldeirão muito do seu escroto'. A excursão pelos Domínios Baixos de Hades não me prendeu muito a atenção. Ela estava concentrada em não privar o solícito vaso sanitário de ser receptáculo de vômitos esporádicos, em realizar pensamentos lascivos envolvendo o professor-guilhotina, um negão jamaicano e um estupro providencial, em condenar minha falta de dedicação, e em chorar sem fazer muito barulho. Eram três da matina de quinta-feira e tinha gente dormindo a essa hora. Terminado o último copo da infusão de espinheira-santa, uma simpática combatente homeopática da gastrite, eram oito e meia da manhã do dia 12 quando saí de casa, estampando uma coleção de belas seqüelas - souvenirs do passeio noturno guiado pelo Esquerda - dentre as quais olheiras que lembravam cuias. De lá iria à casa do Éderson, O Portador Da Má Nova, e então seguiríamos os dois para a Universidade; preparados pra fazer plantão na espera do lançamento dos conceitos, pra lamber pés de um bigodudo ranzinza, pra simular ataques de epilepsia ou de enfarte do miocárdio que provocassem uma compaixão inesperada. Prestar favores homossexuais não era algo que estava incluso na lista preliminar de humilhações.
Quinta-feira, 12/02, 09h40, Laboratório de Engenharia Química, Campus Universitário do Guamá – UFPa
- Podes cortar um braço na frente dele que ele nem liga. Ele rasga beca mesmo. Sem pena - com insucesso em me deixar mais relaxado, o secretário do LEQ era fatalista. - Não tem como esse caralho estar errado. Essa boceta eu refiz três vezes - desesperava-se mais ainda o igualmente desesperado Sharles, encontrando nas genitálias masculina e feminina semelhanças com um algoritmo de decisão de projetos econômicos. - A questão era a mesma do ano retrasado e eu tava com ela na cola. Tá pensando que eu sou doida? - retrucava a tri-repetente-quase-jubilada Alessandra, que por pouco não recebeu uma resposta afirmativa para a sua pergunta. Senhor
dos dois ou mais destinos, o Prof. Trabulo não deu as caras. A
sexta-feira era a data limite para a entrega das notas. Ou seja: ele as
lançaria na surdina e não teríamos tempo hábil para discussão,
patuscatas e pantomimas, muito menos pra extração lingual de frieiras.
Voltei pra casa, exausto. Mais uma jarra do chá na geladeira. O Pedro
nem quis ir pro jogo do Paysandu,
tava doente. Era só pra distrair um pouco, pra descansar a retina da
nefasta paisagem déjà-vu do último andar das profundezas. "Só
com um milagre de Deus", lembrei da sentença irrefutável do
Ederson ao telefone. Rezei. Rezei como se subscrevesse à minha oração
um falido "nestes termos peço deferimento". Chorei novamente. Sexta-feira, 13/02, 11h30, Secretaria Geral dos Cursos, Centro Tecnológico, Campus Universitário do Guamá - UFPa
- Bora desistir, cara. - Bora... opa, não, olha o Trabulo ali...! - no momento derradeiro, Éderson avistou o homem ao qual Deus teria ou não iluminado, ensovacando um incógnito envelope amarelado. - Professor, como o senhor pode ter resolvido de outra maneira aquela questão que valia quatro pontos? - perguntei, acredito que naquele momento células-meninos e células-meninas de Helicobacter pylori trepavam feito coelhos. - Vocês acertaram a questão, Danilo. Vocês e mais oito passaram - plantado sobre as nuvens do céu, Trabulo esticou um braço até o inferno, e ergueu-me até ele, puxando-me pelos cabelos com tanta força que nem deu tempo de mandar um 'falou, babaca' pro Canhoto e nem pra dar uma bisbilhotada no purgatório. - Mas alguns repetentes haviam dito que o resultado era outro. Que o senhor havia resolvido o mesmíssimo problema em sala de aula em anos anteriores - justifiquei-me, enquanto irrompia pela porta de um paraíso de chão e paredes feitos de algodão hidrófilo colorido. - Eu troquei um dos valores numéricos. A Alessandra, por exemplo, vai ter que cursar a disciplina pela quarta vez - óbvio, como sempre se deve ser, o professor apressado distanciou-se de nós. Socando o ar como se protagonizássemos um manjado final de filme americano de faculdade, dispensamos mentalmente os serviços do negão jamaicano e deixamos o prédio da secretaria largando por lá o piano de cauda que carregávamos nos ombros. Considerou-se realizada a obra suprema. Fora deferida a solicitação. A reedição do milagre das Bodas de Canaã estava consumada. A água, dessa vez, transformara-se em chá de espinheira-santa, e nós, dois fudidos, em engenheiros. Heróis que conseguiram concluir um dos cursos mais difíceis do ensino superior no tempo mínimo de dez semestres. Agora é tempo de acreditar mais ainda no que virá. Afinal, agora eu sei que "tudo é possível ao que crê" (Mc 9,23). Clique para comentar >> Comentários |
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