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![]() Eduardo Martins, Filósofo, professor, aspirante a cronista e dono do bar Santa Fé. edu2909@gmail.com
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Anões besuntados Eduardo
Martins 11
de julho de 2004 Existem
coisas que só ocorrem em uma mesa de bar, bem como assuntos que nascem e
morrem neste “divã etílico”. A mesa de bar possui a sacralidade
confessional, tal qual seu equivalente católico, é permeada de símbolos
e cumplicidade. Tudo que é dito e ouvido é prontamente esquecido, mesmo
que para isso todos tenham que sofrer a famigerada amnésia alcoólica. Os
habitués de bares e similares sabem do que estou falando; aqueles
momentos únicos onde – por um brevíssimo instante – a pessoa ao seu
lado torna-se inacreditavelmente confiável, nossos mais íntimos segredos
são despejados freneticamente em ouvidos sequiosos de cumplicidade. Pois
bem, após anos “confessando meus pecados” em mesas de bar, tive a
oportunidade de sentir na pele como o outro lado encara a situação.
Normalmente, a pessoa mais sóbria da mesa ouve com atenção as confissões
alheias; neste dia coube a mim este papel... -
Tens alguma tara? Fuzilou
um amigo sentado ao meu lado. -
Olha, até tenho. Qual a razão da pergunta? Respondi
um tanto quanto desconfiado. -
Eu tenho... Voz
pastosa e olhos perdidos no espaço. Após uma breve pausa continuou: -
Não sei bem se é uma tara, quer dizer, eu acho que é, mas pode ser
apenas um fetiche... Na verdade, também pode ser apenas um desejo muito
forte... -
Sei... Afastei-me
um pouco, olhando para os lados a procura de ajuda futura. -
Qual e a tua tara? -
Bem, na verdade eu... -
Ahh... com certeza não é mais estranha que a minha... não que eu me
orgulhe dela, mas... sabes como é... -
Sei... Não
sabia de nada, tara é tara, por mais estranha que seja. Há tempos as
diversas modalidades de sexo deixaram de chocar, estava começando a ficar
curioso... -
Sim, me conta aí que tara tão diferente é essa (Mais uma cerveja pro
nosso amigo aqui, garçom). -
Olha... não que seja muito estranha, mas tenta não falar pra ninguém
certo? -
Que é isso? Sabes que o que me falares aqui morre aqui, não te
preocupes. -
Certo... mas olha, é que eu acho que existem certos tabus e... -
Fala logo! A
curiosidade falou mais alto que o medo. -
Anões besuntados... -
Anões besuntados? -
Isso... -
Mas besuntados como? Não entendi... -
Em óleo, sabe? Vários anões banhados em óleo... qualquer óleo de
cozinha já serviria... -
Óleo de cozinha? -
Isso, tipo “Soya”, entendeu? -
Entendi... Comecei
a ficar preocupado. -
E tem mais... -
Mais??? Perguntei
incrédulo, era impossível a coisa ficar ainda mais estranha. -
Um dos anões... Começou
a falar em voz baixa e com os olhos arregalados. -
Um dos anões tem que ser albino e estar besuntado com manteiga de lata... Neste
ponto a preocupação novamente cedeu lugar à curiosidade. -
Mas porque manteiga de lata? Não serve a de pote? -
Não... tem que ser de lata... de pote não pode... -
Sei... Mas por que apenas um anão albino? Por que não todos? -
Todos? Não, nem pensar. Isso seria uma perversão inaceitável! Fugiria
totalmente dos padrões de normalidade de uma tara! -
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