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Eduardo Martins,
Filósofo, professor, aspirante a cronista e dono do bar Santa Fé.
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Anões besuntados

Eduardo Martins

11 de julho de 2004

 

Existem coisas que só ocorrem em uma mesa de bar, bem como assuntos que nascem e morrem neste “divã etílico”. A mesa de bar possui a sacralidade confessional, tal qual seu equivalente católico, é permeada de símbolos e cumplicidade. Tudo que é dito e ouvido é prontamente esquecido, mesmo que para isso todos tenham que sofrer a famigerada amnésia alcoólica.

Os habitués de bares e similares sabem do que estou falando; aqueles momentos únicos onde – por um brevíssimo instante – a pessoa ao seu lado torna-se inacreditavelmente confiável, nossos mais íntimos segredos são despejados freneticamente em ouvidos sequiosos de cumplicidade.

Pois bem, após anos “confessando meus pecados” em mesas de bar, tive a oportunidade de sentir na pele como o outro lado encara a situação. Normalmente, a pessoa mais sóbria da mesa ouve com atenção as confissões alheias; neste dia coube a mim este papel...

- Tens alguma tara?

Fuzilou um amigo sentado ao meu lado.

- Olha, até tenho. Qual a razão da pergunta?

Respondi um tanto quanto desconfiado.

- Eu tenho...

Voz pastosa e olhos perdidos no espaço. Após uma breve pausa continuou:

- Não sei bem se é uma tara, quer dizer, eu acho que é, mas pode ser apenas um fetiche... Na verdade, também pode ser apenas um desejo muito forte...

- Sei...

Afastei-me um pouco, olhando para os lados a procura de ajuda futura.

- Qual e a tua tara?

- Bem, na verdade eu...

- Ahh... com certeza não é mais estranha que a minha... não que eu me orgulhe dela, mas... sabes como é...

- Sei...

Não sabia de nada, tara é tara, por mais estranha que seja. Há tempos as diversas modalidades de sexo deixaram de chocar, estava começando a ficar curioso...

- Sim, me conta aí que tara tão diferente é essa (Mais uma cerveja pro nosso amigo aqui, garçom).

- Olha... não que seja muito estranha, mas tenta não falar pra ninguém certo?

- Que é isso? Sabes que o que me falares aqui morre aqui, não te preocupes.

- Certo... mas olha, é que eu acho que existem certos tabus e...

- Fala logo!

A curiosidade falou mais alto que o medo.

- Anões besuntados...

- Anões besuntados?

- Isso...

- Mas besuntados como? Não entendi...

- Em óleo, sabe? Vários anões banhados em óleo... qualquer óleo de cozinha já serviria...

- Óleo de cozinha?

- Isso, tipo “Soya”, entendeu?

- Entendi...

Comecei a ficar preocupado.

- E tem mais...

- Mais???

Perguntei incrédulo, era impossível a coisa ficar ainda mais estranha.

- Um dos anões...

Começou a falar em voz baixa e com os olhos arregalados.

- Um dos anões tem que ser albino e estar besuntado com manteiga de lata...

Neste ponto a preocupação novamente cedeu lugar à curiosidade.

- Mas porque manteiga de lata? Não serve a de pote?

- Não... tem que ser de lata... de pote não pode...

- Sei... Mas por que apenas um anão albino? Por que não todos?

- Todos? Não, nem pensar. Isso seria uma perversão inaceitável! Fugiria totalmente dos padrões de normalidade de uma tara!

- É verdade...

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