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![]() Fernando Favacho, Advogado, pós graduando em direito e processo tributário na PUC-SP, caseiro "ad hoc" do Nowhereland. favacho102@hotmail.com
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Um
povo extraordinário Fernando Favacho
Já disseram que o Brasil não fazia literatura, até que Machado de Assis escreveu Memórias Póstumas de Brás Cubas. Certamente, um dos melhores livros que já devorei. Não que tenha me identificado: afinal, conta a história medíocre de um vagabundo que vivia do dinheiro dos pais, bacharelou-se em Direito sem fazer muito jus a isso, teve um amor acabado por carta anônima, torrava seu dinheiro com supérfluos, publicava suas idéias contra o sistema para aparecer, viajou para fazer a vontade dos pais e era aconselhado por um amigo meio doido. Há uma passagem do Memórias Póstumas... que, para mim, resume o pensamento dos frios sulistas sobre os do norte do país: "Vinha
de guardar a carta e o relógio, quando me procurou um homem magro e
meão, com um bilhete do Cotrim, convidando-me para jantar. O
portador era casado com uma irmã do Cotrim, chegara poucos dias
antes do Norte, chamava-se Damasceno, e fizera a revolução de
1831. Foi ele mesmo que me disse isto, no espaço de cinco minutos.
Saíra do Rio de Janeiro, por desacordo com o Regente, que era um
asno, pouco menos asno do que os ministros que serviram com ele.
(...) Opinava por várias coisas, entre outras, o desenvolvimento do
tráfico dos africanos e a expulsão dos ingleses. Gostava muito de
teatro; logo que chegou foi ao teatro de São Pedro, onde viu um
drama soberbo, a Maria Joana, e uma comédia muito interessante,
Kettly ou a volta à Suíça. (...) Agora queria ouvir o Ernani, que
a filha dele cantava em casa, ao piano: Ernani, Ernani, involami - E
dizia isto levantando-se e cantarolando a meia voz. - No Norte essas
coisas chegavam como um eco. A filha morna por ouvir todas as óperas.
Tinha uma voz muito mimosa a filha. E gosto, muito gosto. Ah! ele
estava ansioso por voltar ao Rio de Janeiro. Já havia corrido a
cidade toda, com umas saudades... Palavra! em alguns lugares teve
vontade de chorar. Mas não embarcaria mais. Enjoara muito a bordo,
como todos os outros passageiros, exceto um inglês... Que os
levasse o diabo os ingleses! Isto não ficava direito sem irem todos
eles barra fora. Que é que a Inglaterra podia fazer-nos? Se ele
encontrasse algumas pessoas de boa vontade, era obra de uma noite a
expulsão dos tais godemes... Graças a Deus, tinha patriotismo, - e
batia no peito, - o que não admirava porque era de família;
descendia de um antigo capitão-mor muito patriota. Sim, não era
nenhum pé-rapado. Viesse a ocasião, e ele havia de mostrar de que
pau era a canoa... Mas fazia-se tarde, ia
dizer que eu não faltaria ao jantar, e lá me esperava para
maior palestra. - Levei-o até à porta da sala; ele parou dizendo
que simpatizava muito comigo. Quando casara, estava eu na Europa.
Conheceu meu pai, um homem às direitas, com quem dançara num célebre
baile da Praia Grande... Coisas! Falaria depois, fazia-se tarde,
tinha de ir levar a resposta ao Cotrim. Saiu; fechei-lhe a porta...
Uf!" Eis nossas características, motivo de galhofa. É uma necessidade de afirmação sem fim, não muito diferente da de qualquer brasileiro que vai ao exterior. Ulha!
Ulha! O Brasil vai jogar aqui!! Mas quê já que os melhores
jogadores da seleção não vão vir? Ulha! O Marcelo Rossi vai
cantar no Círio desse ano! Ah, um bêbado carioca fez um samba em
homenagem à santa! Sabia
que o jiu-jitsu gracie começou aqui? Que comércio, deixa de
pavulage! Bora lá no xópim! Depois agente vai lá no Pop Som, vai
tá aquele dhi dhei... Ah, mana, o chique é falar "você",
"tu" é muito mal educado. Bora destruir essas casas
portuguesas. Vamo fazer um prédio graaande, na Doca, toda de vidro,
que nem no sul! Calor? Agente coloca ar condicionado, besta! Rapá,
o Járde é o nosso homem lá em Brasília! Povinho
besta, nós, metidos, achamos que somos alguma coisa. Não temos
classe, devemos tê-la perdido com a decadência da Belle Époque.
Gostamos do que é brega e nos orgulhamos disso. Mudamos de assunto,
de um lado para outro. Temos necessidade de nos afirmar, já que,
como é de conhecimento, jacarés andam no meio da rua, se é que
tem rua e os índios não a tomaram. Falamos de coisas grandes, somos amicíssimos de muitos não-sei-quem importantes. Conversamos um monólogo sem fim, e depois de horas sabem tudo de nós e nada sabemos dos outros. E nem precisamos saber: basta não termos conseguido contornar aquele olhar tagarela de desprezo: esse povinho do norte! |
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