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Luly Mendonça,
Publicitária, estudante de jornalismo, cronista e colunista dos sites paidegua.com.br e Portal da Cultura.
lulymendonca@terra.com.br

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Ode à Lucidez
Luly Mendonça

Dia desses lanchando na Doca, uma figura, um motoqueiro desses que parecem só existir em filmes, começou a entabular uma conversa, enquanto meu namorado e eu tentávamos saborear um pastel, tentando nos manter inertes e indiferentes a alguns garotos que nos rodeavam pedindo trocado, comida, completamente drogados com corpo exalando cola.

O motoqueiro, grisalho, mais ou menos uns 60 anos (mas aparentava bem menos), sentava confortavelmente em sua moto e derramava sua revolta. “Subversivo”, como ele mesmo se descreveu, não sossegava com seu capacete e com seus óculos amarelos, nem com a situação do país.

“Esses cheira-cola são uns mutilados cerebrais! Olha aí a polícia, passeando na Doca! Não sabem onde é o foco? Naquela praça a ali! Eles passam, olham e ninguém toma a cola da mão desses meninos!”. Nós acenávamos com a cabeça. Ele continuava: “Olha, rapaz, eu fui comprar cola de sapateiro pra consertar meus sapatos. Tive que dar identidade, CPF, todos os meus documentos, assinar papel, uma dificuldade! E esse meninos aí, cheiram cola todo dia, como eles conseguem, rapá? Ninguém controla?!” Dali há algum tempo já estaríamos tagarelando sobre corrupção, mensalão, Brasil, desarmamento e Che Guevara.

O fato é que a revolta do motoqueiro e a história da cola me fez lembrar desse tal referendo. É difícil comprar cola. É difícil compra arma também. Os cheira cola continuam conseguindo fácil. Os bandidos também, continuam conseguindo arma fácil. Mas ninguém proibiu a cola. Mas querem proibir a arma!

Se o desarmamento vencer no dia 23, pessoas esclarecidas, do bem, vão entregar suas armas pensando na paz. Mas vocês acham mesmo que o desempregado, esfomeado, bandido, pobre, sem nada a perder, vai ver a campanha na TV e dizer "É isso, vou entregar minha arma pela paz! Não vou mais assaltar ninguém! Viva a paz!"??? Acham que as gangues, os comandos vermelhos da vida vão jogar suas armas no lixo, pela, desculpem, como se chama mesmo... Ah, paz?!

          Sinceramente, o desarmamento só vai trazer mais violência e nos deixar totalmente à mercê daqueles que continuarão andando armados ilegalmente. Os bandidos, estupradores continuarão conseguindo suas armas, mas dessa vez terão certeza de que nós estamos indefesos.

Não seria mais fácil que tivessem um controle rígido sobre a legalidade do porte? Que comprar uma armas não fosse fácil para ninguém? Que os traficantes fossem presos? Que uma operação “desarma bandido” acontecesse?

A campanha pelo desarmamento fala sobre a violência doméstica, que irá diminuir, sobre as brigas em bares, em festas que acabam em morte. Mas, cá entre nós, a violência doméstica só é praticada por quem tem armas? As mulheres, as crianças vão deixar de ser espancadas ou mortas depois do desarmamento? As brigas em bares não vão mais terminar em morte porque não se pode mais usar revólver? E o que aconteceu com as facas, com as garrafas de vidro, com os martelos, os terçados, os canivetes? Serão proibidos também? E mais importante: a intenção de matar, a revolta, o comportamento doentio e explosivo dessas pessoas vai acabar também com o desamamento?

Então, não seria melhor proibir qualquer objeto que pudesse ser usado como arma? Ou, proibir a venda de álcool, por conta dos incêndios, proibir a venda de automóveis por conta dos acidentes. Proibir a venda de motos, por conta dos assaltos feitos por motoqueiros. Ou questionar a legalidade das Lan Houses, como estão fazendo no caso da menina Bruna, de 15 anos, que foi morta após bater papo pela internet com um estranho. Será mesmo que a morte dela foi culpa da Lan House ou da imprudência de uma menina que não tem medo de sair com estranhos, que não foi orientada, que não tem informação?

O país pensa que poderá cortar o mal pela raiz, mas está apenas cortando os galhos. Pense bem se você vai querer entregar de bandeja sua casa, sua segurança por uma "paz" que não será resolvida com o referendo, e sim, com educação, distribuição de renda igualitária, emprego, saúde e etc. Só assim a população não terá motivos pra ser revoltar, matar e roubar. O Michael Moore já mostrou isso, em Tiros em Columbine! O Canadá possui mais armas que os EUA e, no entanto, o índice de violência no país é mínimo, simplesmente porque eles possuem condições decentes de vida e educação.

         Mas isso é Brasil, o país da palhaçada, onde os envolvidos no maior roubo à nação que já presenciei em minha curta vida saem na playboy, gravam cd's, renunciam e o nosso dinheiro continua por aí, “desaparecido”. Quem vai nos ressarcir? Quando os ladrões do planalto fabricam suas próprias leis e assim se protegem, fica mesmo difícil haver justiça, condições decentes de vida para os brasileiros e cada vez mais distante o ideal de paz. 

Quem sabe se o referendo fosse para definir que fazer com nossos ilustres personagens do Mensalão, ou para definir nossos direitos, nossa educação, nossa saúde pública otimizada, nosso salários, nossos empregos, as armas não seriam mais um problema.

         Foi aí, que o motoqueiro, contando as peripécias que ele e os amigos faziam para assistir a alguns filmes ou ler livros que eram proibidos, me fez pensar que na época em que ninguém podia falar nada, todo mundo era ouvido de alguma maneira. Os jovens, o povo tinham ideais e lutavam por isso, eram engajados. E hoje, quando temos liberdade de dizer o que quisermos, ninguém nos ouve. E nós vemos a corrupção na TV, como se assistíssemos a um filme triste, e ao final, desligamos a televisão como se aquilo não fosse conosco e vamos viver nossa vida individualista, porque temos mais o que fazer: temos que sobreviver.

         “Isso que estamos vivendo é a luta dos fracos contra os oprimidos”, disse o motoqueiro. Justiça com as próprias mãos, revolta, violência, porque o Brasil é uma prisão com mar em volta, que nos faz reféns em nossas próprias casas, na rua, nas escolas.

Acho sinceramente, que as próximas correntes por e-mail, campanhas de rádio, tv, deveriam ser feita por nós, para nós mesmos! Deveríamos todos ir às urnas no dia da próxima eleição política e votar em branco, numa grande demonstração de insatisfação, votar em branco!!! Antes só do que mal acompanhados. Quem sabe assim atingiríamos a lucidez, da qual José Saramago, fala em seu livro.

Mas as pessoas estão ocupadas, na luta pela vida, pela segurança, pelo seu próprio couro, ocupadas demais pra se preocupar com isso, até para ler este texto. Mas se alguém o leu até aqui, e entendeu, eu acredito, ainda pode mudar. E se alguém o parar enquanto você come um pastel e começar a falar sobre o país a ponto de fazer você pensar, escreva outro texto como esse, repasse e acredite: ainda pode mudar.

 

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