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Os podres poderes 

e a ética da quitanda

 

 

Rosaly Brito
Coordenadora do curso de Comunicação da UFPA

 

Em termos de controle da informação e censura à liberdade de pensamento e de expressão, pode-se dizer que o regime militar do pós-64 no Brasil acendeu uma vela para Deus e outra para o diabo. De um lado, censurou com mão de ferro a imprensa e as artes, produzindo um sofisticado aparato de repressão e controle, que se traduziu não só nas leis de exceção que lhes deram sustentação, como também nos atos de força que iam desde a presença de censores nas redações dos jornais até a tortura e morte de jornalistas e intelectuais que se opunham ao regime fachista.

De outro lado, investiu maciçamente na criação do sistema nacional de telecomunicações, que permitiu a formação de uma rede nacional de radiodifusão. Foi graças a essa iniciativa que a Rede Globo de Televisão pôde dar o primeiro salto para se transformar mais tarde na quarta televisão do mundo. Milhões de brasileiros passaram a ser anestesiados diariamente diante do Jornal Nacional - que foi ao ar pela primeira vez em 1969 - e de toda a programação da nascente Rede Globo, feita sob medida para a adesão das massas à ideologia de segurança nacional.

A vela para o diabo foi o uso da força; a vela para Deus foi a criação de um poderoso sistema de informação e entretenimento de massas. Ou aquilo que Herbert Marcuse, um dos integrantes da Escola de Frankfurt, chamou de a maior "fábrica de consentimento" que o século XX produziu para controle das massas. Dela o capitalismo contemporâneo extraiu em grande medida o seu triunfo global.

Mas justamente pela forma de dominação sutil que a caracteriza é que as cenas de selvageria a que a cidade assistiu atônita no último dia 21 de janeiro, quando um dos donos das Organizações Rômulo Maiorana, Ronaldo Maiorana, agrediu covardemente o jornalista Lúcio Flávio Pinto, sem dúvida um dos nossos mais consistentes intelectuais, soam como a completa barbárie. Quem leu o artigo "O rei da quitanda" no Jornal Pessoal, editado por Lúcio, sabe o porquê do ódio visceral de Ronaldo.

É que nunca se viu um raio-X tão fiel e contundente dos podres poderes de nossa provinciana imprensa. Lúcio denuncia, com riqueza de fatos, o amesquinhamento do poder monopolístico do jornal O Liberal, que virou um balcão de negócios (ou uma quitanda, para usar a expressão da manchete), que chantageia e segura em rédea curta seus anunciantes. O que vem em último lugar, aqui, é o interesse do leitor. Tão mais verdadeira a denúncia de Lúcio, maior a indignação ante a agressão por ele sofrida. Pobre do Estado que está à mercê dessa forma mesquinha de poder, condizente, aliás, com as elites políticas locais.

Se nos calarmos diante disso estaremos condenados a viver de cabeça baixa, resignados diante da pequenez de um poder ao mesmo tempo vazio e arrogante. É hora de sermos donos da nossa voz, para deixar a voz do dono reduzida à sua insignificância.

 

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