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Vânia Medeiros

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Momentos são...

         “Comparar uma coisa com outra
 é esquecer essa coisa” (Alberto Caeiro)

Para Adriane

Vânia Medeiros

Domingo passado foi aniversário da Nayara, minha quase-prima (não é de sangue, mas é como se fosse). Eu e papai fomos a uma “caranguejada” na casa dela, já esperando uma festa animada, cheia de gente, com direito à roda de violão, etc, afinal, as festas na casa dos Guedes são sempre assim, inesquecíveis.

Quando chegamos, a casa já estava lotada. Conseguimos um lugarzinho na disputada mesa da cozinha e eu logo peguei um caranguejo pra entrar no ritmo da festa. Lá pelas tantas, o papai pegou o violão, começou a tocar, e a festa pegou fogo.

Não sei se fui pedir pra ele tocar uma música, ou pra me dar um caranguejo, enfim, não importa. Pedi à moça que estava do lado dele que o chamasse. Foi quando percebi que era a Adriane. A Adriane Queiroz é uma soprano paraense que hoje brilha na ópera de Berlim, já cantou ao lado do Plácido Domingo...Resumindo, é uma fera! E é amiga da minha tia há anos. Toda vez que ela está em Belém a minha tia organiza uma festa e ela dá uma “palhinha” pra gente.

Bom, mas voltando à caranguejada, o pessoal estava superanimado, cantando desde Chico até músicas de 1920, Raul, jovem guarda carimbó, marchinhas de carnaval... E a Adriane lá, cantando junto com todo mundo, dançando, sem ficar com aquele nariz empinado de gente famosa.

Tudo ia muito bem até a Nayara pedir pra ela cantar “Beatriz”. Todo mundo fez silêncio, ela deu uma olhada rápida na letra, e ali, sem acompanhamento (papai não sabia tocar essa), na cozinha, no meio dos caranguejos, estávamos ouvindo uma das vozes mais belas cantando “Beatriz”. Quando ela começou cantando “Olha, será que ela é moça...” eu olhei para Nayara e ela estava com os olhos cheios de lágrimas. De repente os meus, e de muita gente ali naquela mesa, também estavam. Ela conseguiu nos emocionar assim, num cenário nada a ver com ópera, sem acompanhamento, só a voz e a interpretação.

Depois de ser ovacionada por todos, começou o coro de “canta mais uma!” e vários pedidos. No fim da festa ela não só já tinha cantado música clássica, como também jazz, bossa nova, gospel, Beatles (eu que dei a cola da letra de ‘Imagine’ para ela!).  Foi uma festa realmente inesquecível.

Na semana seguinte ela se apresentou na Igreja se Sto Alexandre, acompanhada pelo tio Paulo José (o melhor pianista de todos os tempos. É tanta coisa pra falar dele que vou guardar para a próxima crônica).  É lógico que a igreja lotou e é mais lógico ainda que a apresentação dela foi ma-ra-vi-lho-sa!

Como tudo que é bom dura pouco, as férias dela acabaram e ela precisou voltar à Alemanha. Mas antes organizaram uma festa surpresa e despedida pra ela, com direito a mais show particular.

O cantor, ou até mesmo o músico em geral, pode ter o talento que for, mas se não tiver emoção dentro de si, a música não flui. A Adriane, além da voz espetacular, superelogiada pelas mais respeitadas autoridades na área, canta com o coração, incorpora a música como se fizesse parte dela, dá vida àquelas palavras, consegue facilmente emocionar quem está ouvindo. Até brinquei com ela, dizendo que ela faria todo mundo chorar até se cantasse “Atirei o pau no gato”. Não consigo comparar a voz dela com nada, até me esforcei pra encontrar algo que traduzisse o quão bom é ouvi-la cantar, mas desisti. É incomparável mesmo.

Enquanto ela cantava “Moon river” na festa de despedida, eu agradeci a Deus pela oportunidade de estar ali. “Obrigada, Deus, por me proporcionar um momento desses. Obrigada por estar aqui, ouvindo essa maravilha!”.

No final da noite, todo mundo pedia que ela cantasse “Amazing Grace”, a música que deixa todo mundo mais pasmo ainda com a potência da voz dela. “Gente, mas vocês não enjoam dessa música?!”, ela dizia. “Eu não enjoar, tudo bem, já que essa música é minha oração e eu canto todo dia. Mas vocês?! Eu não entendo!”. O que ela não conseguiu entender é que ouvi-la é uma dádiva, e disso não vamos enjoar nunca.

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