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Livro “Os
livros podem ser divididos em dois grupos: Aqueles
do momento e aqueles de sempre.
(John Ruskin)” Vânia
Medeiros
O dia começou com a rotina de sempre: acordar, tomar banho, tomar café, ler o jornal...Tomei um susto ao ler a manchete que dizia que Lygia Bojunga estaria em Belém para falar sobre sua obra e seu mais novo livro. A primeira coisa que me veio à cabeça foi algo que ocorreu há 8 anos: ao ler o livro “O meu amigo pintor” comecei a chorar na parte em que o pintor morria e pensei como aquela escritora era má. Livros infantis não deveriam ter mortes, lágrimas, tristeza. Onde estavam as fábulas, o príncipe encantado, os duendes, a fada madrinha? Que livro mais estranho de se indicar para uma criança! Durante
o dia todo fiquei pensando em como seria conversar com ela, perguntar
o porquê dessa maldade com as crianças, enfim. Comecei a fazer ligações
para amigos implorando por uma companhia até o local onde ela
estaria. Acho que todos responderam da mesma forma: “Quem é
essa?”. Minha nossa! Como ‘quem é essa?’ ?! Isso é um absurdo,
uma ofensa, uma falta de consideração! Aí percebi que muitos não a
conhecem porque não têm o hábito de ler (o que eu também acho uma
vergonha, mas isso é tema para outra crônica). Já
estava com o pensamento “quem precisa de companhia?” quando
resolvi tentar uma última ligação. Depois de dizer quem era a
Lygia, aconteceu o inesperado: minha amiga lembrou dela! “Não é a
que escreveu ‘o meu amigo pintor’?”. Companhia não era mais
problema. Chegamos
um pouco atrasadas, o lugar estava lotado (tivemos até que sentar no
chão), todos em silêncio e ela ali, na minha frente, falando sobre
sua vida, suas histórias, seus hábitos de escritora, além de
responder perguntas do público e encenar trechos do seu mais novo
livro. As
horas passaram e eu nem percebi; era tão bom ouvir tudo aquilo que as
coisas mais superficiais (cansaço, fome, dor nas costas e uma rinite
alérgica que teimou em aparecer) ficaram em segundo plano. Pouco antes de ela encerrar, saí de mansinho (minha amiga já havia ido embora) e fui para a fila que aguardava os autógrafos. Em seguida ela apareceu, sempre muito simpática e sorridente, dizendo “Nossa, quanta gente! Acho que a minha caneta não vai agüentar tantos autógrafos!”. Ao
chegar a minha vez, tudo que eu tinha pensado em dizer a ela
simplesmente sumiu da minha cabeça. A minha única atitude foi
entrega-la o livro que li há 8 anos para que ela autografasse. Quando
viu o livro, disse: “Mas você é tão novinha e já traz um livro
antigo! Tenho um carinho especial por ele”. Então comecei a contar
a história, desde a parte que eu li na infância até as lágrimas, a
indignação pelo livro ser triste e a pergunta ‘por que essa
maldade com as crianças?’. Foi então que ela respondeu ‘As crianças
têm que se acostumar com coisas tristes desde cedo. Além disso,
mesmo depois de tanto tempo, você ainda lembra da história desse
livro, ao contrário de outras que só foram lembradas no momento da
leitura”. Voltei
para casa feliz da vida, mostrando o autógrafo para quem quisesse
ver, contando como foi, como ela era, a conversa, enfim, estava numa
empolgação sem tamanho. Havia conhecido uma das melhores escritoras
do Brasil e a autora do meu melhor livro da infância. É ou não é
motivo para ficar feliz?! Antes
de dormir voltei a pegar o livro. Olhei de novo o autógrafo só pra
ter certeza que era de verdade (dizia “Vânia, gostei de saber que
você se ligou tanto aos meus personagens. Com afeto, Lygia)”. Em
seguida, pensei em relê-lo; era tão fino que acabaria bem rápido. Mas
aí dei uma olhada em seu aspecto: estava velho, amarelado, com o meu
nome escrito em letras de criança... Será que a história que marcou
tanto a minha infância teria o mesmo impacto agora? Pode ser que os
livros que nos encantaram no passado tendam a perder seu encanto com o
tempo, e o que antes era mágica, agora é banalidade. Então se perde
o encanto da primeira vez, um encanto que poderia ser eterno. Diante de todos esses argumentos, mudei de idéia: guardei o livro junto aos outros e fui dormir apenas com a lembrança de um pintor que pode até ter morrido na história, mas estará sempre vivo, pintando belas imagens nos meus sonhos de criança.
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