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Lágrima
Vânia Medeiros “Vai
ser difícil sem você / porque você está comigo o tempo todo...”
(Renato Russo) Entrou em casa. Silêncio. Luzes apagadas, tudo no lugar, nada se mexe. Tirou os sapatos, pés no chão. Ao andar, ouve-se o estalido das tábuas. “Não suporto esse barulho. Preciso trocar esse piso”, pensou. “Preciso trocar tantas coisas...”. A porta do quarto estava aberta. O vento frio entrava pela janela, assim como a luz laranja-roxa-azul do entardecer. Deu o primeiro passo e observou aquele quarto: tão completo e agora tão vazio...Olhou para o sapo de areia ao lado da porta. Ainda não tinham escolhido um nome para ele, e agora queria joga-lo fora para deixar a porta bater e ninguém nunca mais entrar ali para depois sair. O aparelho de DVD estava ligado. Interrompeu o filme que assistia quando o telefone tocou chamando para uma conversa séria. Levantou da cama depressa, abriu o armário, pegou a primeira roupa que viu e correu ao encontro do amor, da perda, da dor, da solidão. Agora observava as marcas da pressa no quarto: cama desarrumada, DVD ligado, roupas espalhadas...Lembrou que, horas antes, tudo estava bem e agora tudo lateja, tudo parece derreter. No mural, muitas fotos juntos. Realmente combinavam, formavam um belo casal. Será que conseguiria sorrir daquele jeito novamente? Quando? Logo abaixo do mural estava o seu teclado, exibindo a partitura da música que havia lhe pedido para aprender a tocar. “Para você aprender a tocar e sempre lembrar de mim”, disse ao dar-lhe a partitura. Logo aprendeu a tocar e, inevitavelmente, sempre lembrava dos dois juntos, dos momentos de descontração, de companheirismo, de cumplicidade, de amor. Agora havia decidido não tocar mais essa música. Pegou a partitura, tentou rasgar e logo se arrependeu. Jogou na primeira gaveta que viu em sua frente. Sobre a escrivaninha estava o livro que não desgrudara nos últimos dias. “os meu livros nunca me abandonam, por isso merecem o meu carinho”, pensou. Mas lá, na primeira página, estava a dedicatória: “Comprei o livro mais grosso para ver se ele dura pelo menos uma semana na sua mão antes de ir para a prateleira. Com carinho...”. ao lê-la novamente quase sorriu: a rapidez com que lia sempre foi motivo de espanto. Ainda na escrivaninha viu os CD’s que havia pego emprestado no dia anterior (teria que devolve-los em algum momento), o celular carregando, uma calculadora, uma revista VEJA, estojo aberto, canetas, álbuns de fotos. As fotos ainda incomodavam-na. Não queria mais olha-las e lembrar. Queria que sumissem, que explodissem, que criassem asas e voassem ao infinito. Pegou o seu caderno de crônicas. Folheou-o e percebeu como tantas falavam sobre os dois, como é fácil escrever quando se gosta de alguém e se está feliz. Na última folha, viu a crônica inacabada. Na verdade só tinha escrito a primeira frase: “Não vou mais escrever sobre o amor”. Marcando a página estava o cordão, o famoso cordão que foi transferido para o seu pescoço no dia do primeiro beijo e nunca mais voltou ao dono. Não passava de um simples cordão, daqueles que vende em qualquer hippie, que continha o símbolo japonês da palavra amor e logo abaixo a palavra escrita. Olhou o cordão, a frase no caderno, as fotos mais uma vez, a janela (já escurecera) e sentiu o vento aumentar. Agora tinha cheiro de saudade. Pensou em como tudo vai embora do mesmo jeito que veio: de repente, sem querer. Cada dia é sempre o último e sempre haverá o verdadeiro último dia. E toda lágrima de saudade que surgir será a primeira, porque a saudade é sempre eterna.
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